{"id":3574,"date":"2025-08-10T22:54:14","date_gmt":"2025-08-11T03:54:14","guid":{"rendered":"https:\/\/flacso.edu.ec\/accionnoviolenta\/?p=3574"},"modified":"2025-10-23T12:51:16","modified_gmt":"2025-10-23T17:51:16","slug":"nos-iamos-ter-sucesso-o-rio-me-disse","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/flacso.edu.ec\/accionnoviolenta\/nos-iamos-ter-sucesso-o-rio-me-disse\/","title":{"rendered":"N\u00f3s \u00edamos ter sucesso, o rio me disse"},"content":{"rendered":"\t\t<div data-elementor-type=\"wp-post\" data-elementor-id=\"3574\" class=\"elementor elementor-3574\" data-elementor-post-type=\"post\">\n\t\t\t\t<div class=\"elementor-element elementor-element-e8618f3 e-flex e-con-boxed e-con e-parent\" data-id=\"e8618f3\" data-element_type=\"container\" data-e-type=\"container\">\n\t\t\t\t\t<div class=\"e-con-inner\">\n\t\t\t\t<div class=\"elementor-element elementor-element-544b402 elementor-widget elementor-widget-heading\" data-id=\"544b402\" data-element_type=\"widget\" data-e-type=\"widget\" data-widget_type=\"heading.default\">\n\t\t\t\t<div class=\"elementor-widget-container\">\n\t\t\t\t\t<h2 class=\"elementor-heading-title elementor-size-default\">N\u00f3s \u00edamos ter sucesso, o rio me disse<\/h2>\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t<\/div>\n\t\t<div class=\"elementor-element elementor-element-450fd470 e-flex e-con-boxed e-con e-parent\" data-id=\"450fd470\" data-element_type=\"container\" data-e-type=\"container\">\n\t\t\t\t\t<div class=\"e-con-inner\">\n\t\t\t\t<div class=\"elementor-element elementor-element-6e1288cd elementor-widget elementor-widget-text-editor\" data-id=\"6e1288cd\" data-element_type=\"widget\" data-e-type=\"widget\" data-widget_type=\"text-editor.default\">\n\t\t\t\t<div class=\"elementor-widget-container\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n<p class=\"has-text-align-right wp-block-paragraph\"><strong> Sof\u00eda Chipana Quispe<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O tempo em que te\u00e7o estas palavras nos liga \u00e0 for\u00e7a daqueles que viveram seu tempo de transforma\u00e7\u00e3o &#8211; o Dia dos Mortos, que para o qu\u00edchua \u00e9 o Aya Marqay Killa, ou seja, o tempo da lua daqueles que partiram. Mas, de acordo com av\u00f4s e av\u00f3s, eles chegam para visitar seus entes queridos. S\u00e3o presen\u00e7as que vem com as chuvas para regar as sementes depositadas no ventre da M\u00e3e Terra, assim como seus corpos que buscam renascer para os outros modos de vida.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A partir das oferendas de alimentos e bebidas que prepara os para receb\u00ea-los, compartilho com a permiss\u00e3o dos ancestrais, a mem\u00f3ria do movimento do Taki Onkuy que permitiu que alguns povos resistissem e resistam \u00e0 invas\u00e3o colonial e \u00e0 aliena\u00e7\u00e3o das experi\u00eancias cosmos. Certamente houve outras experi\u00eancias que sustentaram a vida dos diversos povos que habitaram a grande Abya Yala, a terra de sangue vital, de plena flora\u00e7\u00e3o, como se chama a territorialidade da Am\u00e9rica Latina, que ainda sustenta a vida dos povos que n\u00e3o s\u00f3 resistiram ao genoc\u00eddio sistem\u00e1tico dos sistemas coloniais capitalistas e patriarcais. Uma resist\u00eancia a partir da qual se tecem os outros modos de vida, que chamamos de espiritualidade.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Da for\u00e7a do tempo que habitamos evoco a presen\u00e7a e as palavras de Bertha C\u00e1ceres em suas conversas com os rios Gualcarque e Blanco (em Honduras), com as quais enfrentou o projeto hidrel\u00e9trico de Aqua Zarca. Da\u00ed extraio esse sentimento compartilhado para dar t\u00edtulo ao tecido (texto) que apresento: \u201cEu sabia o qu\u00e3o dif\u00edcil seria, mas sabia que \u00edamos ter sucesso, o rio me disse.\u201d&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O v\u00ednculo com os territ\u00f3rios-corpos e os povos ancestrais tem a for\u00e7a das mem\u00f3rias que acompanham suas resist\u00eancias diante das realidades de opress\u00e3o, repress\u00e3o e exterm\u00ednio de seus corpos denominados \u201c\u00edndios\u201d e, junto a eles, seus territ\u00f3rios.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Na travessia das resist\u00eancias, nos aproximamos da comunidade de Taki Onkuy que se localiza nos anos de 1560-1572, quase nos primeiros tempos da invas\u00e3o colonial, nas regi\u00f5es do centro (Ayacucho) e sul (Arequipa) do Peru &#8211; embora alguns estudos tamb\u00e9m a coloquem nas regi\u00f5es qu\u00edchuas do que \u00e9 Sucre, na Bol\u00edvia -. Trata-se de um movimento nomeado pelos inquisidores como a doen\u00e7a do canto porque eles haviam assumido o canto e a dan\u00e7a para entrar em comunh\u00e3o com os lugares sagrados destru\u00eddos como w\u2019acas, onde localizavam as for\u00e7as vitais que adquiriam vida em seus corpos.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Esta resist\u00eancia sustentava-se na espiritualidade que encaminharia a renova\u00e7\u00e3o e reconstru\u00e7\u00e3o das espiritualidades ancestrais, para superar a predomin\u00e2ncia das estruturas religiosas e sociais dos invasores e das elites incas que se haviam estendido pelos territ\u00f3rios andinos. Por isso, \u00e9 catalogada como um movimento sociorreligioso que buscava a unifica\u00e7\u00e3o andina a partir dos la\u00e7os comuns que provinham das espiritualidades ancestrais ligadas \u00e0s montanhas, lagoas, lagos, mares, florestas e paqarinas &#8211; lugares onde habita a for\u00e7a e mem\u00f3ria dos ancestrais &#8211; , que remeteram \u00e0s origens da vida. Origem que em Aymara se denomina como Taypi, o tempo em que o cosmos foi se harmonizando e equilibrando, e a vida dos diversos seres come\u00e7ou a germinar.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A resist\u00eancia de Taki Onkuy vinha do v\u00ednculo com o cora\u00e7\u00e3o da Grande Rede ou Comunidade da Vida, pelo que desde o canto e a dan\u00e7a buscavam curar os territ\u00f3rios feridos por causa do desequil\u00edbrio que produzia a presen\u00e7a profanadora e inquisidora dos invasores. Enquanto alguns resistiam por meio da luta corpo a corpo contra os invasores, o movimento do Taki Onkuy, a partir da conex\u00e3o com as for\u00e7as c\u00f3smicas e tel\u00faricas, buscava interpretar as mensagens que traziam os movimentos de Amaru, a serpente ancestral que habita nas profundezas dos vulc\u00f5es, as altas cordilheiras, e deixava sentir sua for\u00e7a tel\u00farica por meio de terremotos que possibilitaria uma nova ordem.&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A conex\u00e3o com Amaru, uma das for\u00e7as vitais do cosmos, sup\u00f4s a busca de uma recria\u00e7\u00e3o da vida de muitos povos em Abya Yala sobrevivessem. Por outro lado, deve-se notar que Amaru era a for\u00e7a evocada por meio da nomea\u00e7\u00e3o, como se fez com o \u00faltimo governador Inca, Tupac Amaru I, cuja revolta sup\u00f4s sua decapita\u00e7\u00e3o no ano de 1572. Este fato foi relacionado \u00e0 hist\u00f3ria do Inkarri (Rei Inca) cuja cabe\u00e7a decapitada busca se unir ao seu corpo. \u00c9 uma for\u00e7a que sustenta os diversos levantes, como foram as significativas organiza\u00e7\u00f5es promovidas por Tupac Amaru II (1780) e Tupac Katari (serpente, em aymara) em 1781.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A breve revis\u00e3o que apresentamos nos permite ver o profundo anseio pela reconstitui\u00e7\u00e3o dos territ\u00f3rios e corpos em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s for\u00e7as vitais que fluem e mant\u00eam a vida dos povos. Isso sup\u00f5e a conex\u00e3o com a mem\u00f3ria milena da qual fazem parte e buscam sua dignifica\u00e7\u00e3o para questionar a ordem estabelecida a partir do sistema colonial que se legitima nas estruturas sociais e religiosas.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c9 significativo que, apesar da imposi\u00e7\u00e3o de tais estruturas, as pr\u00f3prias interpreta\u00e7\u00f5es mant\u00eam suas resist\u00eancias, como se pode vislumbrar no movimento do Taki Onkuy em que seus l\u00edderes assumem os nomes crit\u00e3os b\u00edblicos relacionados \u00e0 Cruz de Cristo: Jo\u00e3o Chocne (ou Chocna), Santa Maria e Santa Maria Madalena. Possivelmente, com muita inten\u00e7\u00e3o, para refletir sua realidade naquele corpo do crucificado, ou de ver a fragilidade do Deus crist\u00e3o vencido na Cruz.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Embora a mem\u00f3ria de Taki Onkuy nos chegue como parte da mem\u00f3ria ingrata, nos permite ver o v\u00ednculo territ\u00f3rio-corpo que os povos andinos mantinham. Embora n\u00e3o tenhamos muitos registros sobre as resist\u00eancias n\u00e3o violentas e as que nos chegam s\u00e3o mediadas pelo olhar dos cronistas. No entanto, eles s\u00e3o percebidos no sentimento que acompanha as resist\u00eancias nos diversos territ\u00f3rios, que busca de forma permanente curar os territ\u00f3rios, corpos e terras. N\u00e3o \u00e9 um processo f\u00e1cil pela criminaliza\u00e7\u00e3o da defesa de todas as formas de vida que assumem os diversos povos.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Pois se trata de experi\u00eancias cosmos que resistem a partir de suas espiritualidades relacionais, como compartilhou Bertha C\u00e1ceres em suas palavras replicadas, que haviam \u201caprendido a lutar com m\u00fasica, com cerim\u00f4nias, com espiritualidade\u201d, a fim de restabelecer as rela\u00e7\u00f5es de correspond\u00eancias rec\u00edprocas que procuram o equil\u00edbrio e a harmonia como uma for\u00e7a de cura que recria a vida, diante das opress\u00f5es do patriarcado, capitalismo, racismo, sexismo.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E como prop\u00f5e Lorena Cabnal, a partir do feminismo comunit\u00e1rio, trata-se da cura como caminho pol\u00edtico c\u00f3smico, nas din\u00e2micas e rela\u00e7\u00f5es cotidianas, onde resistir \u00e9 tamb\u00e9m recriar a vida &#8211; muitas vezes n\u00e3o consideradas como lutas e resist\u00eancias pelas formas hegem\u00f4nicas de compreend\u00ea-las. Pois bem, os povos, a partir de seus princ\u00edpios vitais, buscam enfrentar as imposi\u00e7\u00f5es para manter e melhorar suas condi\u00e7\u00f5es de vida. \u00c9 o caso do processo de sele\u00e7\u00e3o, cuidado e plantio das sementes que geralmente s\u00e3o assumidos pelas mulheres como uma pol\u00edtica em que se decide salvaguardar a soberania alimentar e o cuidado das sementes ancestrais, contra as pol\u00edticas extrativistas das sementes transg\u00eanicas e o monocultivo.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Implica os processos que buscam ser assumidos de forma hol\u00edstica, como acontece na demanda das mulheres ind\u00edgenas que n\u00e3o se limitam apenas a levantar seus direitos, mas \u00e0 digna\u00e7\u00e3o ou cura da vida. Enquanto o poder patriarcal colonial n\u00e3o o reconhece com for\u00e7a e poder, eles n\u00e3o s\u00e3o tomados como lutas. Da mesma forma acontece com as hist\u00f3rias narradas, onde o poder b\u00e9lico se imp\u00f5e e n\u00e3o tanto as resist\u00eancias que conseguiram quebrar certos sistemas de dom\u00ednio.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Quero concluir com a mem\u00f3ria curativa de outras cinco mulheres, lideradas por Domitila Chungara no comit\u00ea de donas de casa da organiza\u00e7\u00e3o mineira do s\u00e9culo XX na Bol\u00edvia &#8211; que pouco se reconhece nas lutas dos sindicatos e nos pr\u00f3prios coletivos feministas, e menos pela hist\u00f3ria oficial-.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Elas, em 1978, iniciaram em La Paz, sede do governo da Bol\u00edvia, uma greve de fome para enfrentar a ditadura militar de Hugo Banzer, projeto pol\u00edtico que percorria diversos territ\u00f3rios como parte do Plano Condor que foi aplicado em diversos pa\u00edses pela Escola das Am\u00e9ricas, operada pelo ex\u00e9rcito dos Estados Unidos.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Domitila, suas companheiras e suas filhas e filhos empreenderam a greve de fome \u00e0 qual se juntaram milhares, conseguindo derrubar a ditadura. Embora o regime militar tenha se articulado novamente perseguindo com maior viol\u00eancia, at\u00e9 o ano de 1982.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Domitila deixou uma grande li\u00e7\u00e3o, a de pedir a palavra e vencer o principal inimigo: o medo. O que a levou a enfrentar o poder sanguin\u00e1rio da ditadura militar, como parte das extens\u00f5es coloniais que tiraram e silenciaram a vida de milhares, \u00e0s quais devemos adicionar os milh\u00f5es de vidas e povos ancestrais que foram extintos pelo poder genocida que buscou sistematicamente silenciar os outros modos de vida que representavam uma amea\u00e7a a seus interesses.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>O tecido da vida: reflete um tecido vivo, estendido e entrela\u00e7ado em todas as suas dimens\u00f5es e profundidades, onde tudo tem seu lugar e seu tempo, inter-relacionado no movimento harm\u00f4nico das for\u00e7as que fazem a Vidam seus ciclos e retornos. Nos lembra de todos os seres em comunidade, nossa capacidade de criar e transformar poss\u00edveis realidades, Somos as m\u00e3os que tecem nesta extens\u00e3o do cora\u00e7\u00e3o. A foto ;e uma arte-tecido de Erlini Chove Tola Medina.&nbsp;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>* Sof\u00eda Chipana Quispe<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c9 aymara do Estado Plurinacional da Bol\u00edvia. Membro da Comunidade de S\u00e1bias e Te\u00f3logas Ind\u00edgenas de Abya Yala, e caminha junto \u00e0 Comunidade de Teologia Andina do Peru, Bol\u00edvia e Argentina.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Traduzido por L\u00edvia Bueno<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n\t\t\t\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t<\/div>\n\t\t","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Sof\u00eda Chipana Quispe O tempo em que te\u00e7o estas palavras nos liga \u00e0 for\u00e7a daqueles que viveram seu tempo de transforma\u00e7\u00e3o &#8211; o Dia dos Mortos, que para o qu\u00edchua \u00e9 o Aya Marqay Killa, ou seja, o tempo da lua daqueles que partiram. 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