{"id":3528,"date":"2025-07-04T16:04:17","date_gmt":"2025-07-04T21:04:17","guid":{"rendered":"https:\/\/flacso.edu.ec\/accionnoviolenta\/?p=3528"},"modified":"2025-07-04T16:06:29","modified_gmt":"2025-07-04T21:06:29","slug":"um-movimento-feminista-na-bolivia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/flacso.edu.ec\/accionnoviolenta\/um-movimento-feminista-na-bolivia\/","title":{"rendered":"Um movimento feminista na Bol\u00edvia?"},"content":{"rendered":"\t\t<div data-elementor-type=\"wp-post\" data-elementor-id=\"3528\" class=\"elementor elementor-3528\" data-elementor-post-type=\"post\">\n\t\t\t\t<div class=\"elementor-element elementor-element-683ac02 e-flex e-con-boxed e-con e-parent\" data-id=\"683ac02\" data-element_type=\"container\" data-e-type=\"container\">\n\t\t\t\t\t<div class=\"e-con-inner\">\n\t\t\t\t<div class=\"elementor-element elementor-element-600c51f elementor-widget elementor-widget-heading\" data-id=\"600c51f\" data-element_type=\"widget\" data-e-type=\"widget\" data-widget_type=\"heading.default\">\n\t\t\t\t<div class=\"elementor-widget-container\">\n\t\t\t\t\t<h2 class=\"elementor-heading-title elementor-size-default\">Um movimento feminista na Bol\u00edvia?<\/h2>\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t<\/div>\n\t\t<div class=\"elementor-element elementor-element-73af51e3 e-flex e-con-boxed e-con e-parent\" data-id=\"73af51e3\" data-element_type=\"container\" data-e-type=\"container\">\n\t\t\t\t\t<div class=\"e-con-inner\">\n\t\t\t\t<div class=\"elementor-element elementor-element-2fc99c92 elementor-widget elementor-widget-text-editor\" data-id=\"2fc99c92\" data-element_type=\"widget\" data-e-type=\"widget\" data-widget_type=\"text-editor.default\">\n\t\t\t\t<div class=\"elementor-widget-container\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n<p class=\"has-text-align-right wp-block-paragraph\"><strong><em>Maria Zeballos e Wara Vargas Lara<\/em><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A poeta boliviana Virginia Ayll\u00f3n aponta alguns fatores que, ao longo da hist\u00f3ria, dificultaram a unifica\u00e7\u00e3o de ideias e cren\u00e7as sobre o feminismo \u2014 ou, ao menos, o estabelecimento de uma agenda comum pelos direitos das mulheres na Bol\u00edvia. O primeiro obst\u00e1culo, nas d\u00e9cadas de 1920 e 1930, foi a estrutura racial de uma sociedade marcada pelo colonialismo, refletida na incompatibilidade de interesses entre mulheres das classes m\u00e9dia e alta e aquelas vinculadas a organiza\u00e7\u00f5es oper\u00e1rias e ind\u00edgenas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Um segundo momento hist\u00f3rico ocorreu nas d\u00e9cadas de 1970 e 1980, quando as ideias feministas se disseminaram amplamente na Bol\u00edvia com a expans\u00e3o da globaliza\u00e7\u00e3o e da democracia. Segundo Ayll\u00f3n, essas ideias foram introduzidas por meio da implementa\u00e7\u00e3o de agendas de g\u00eanero promovidas por ONGs, o que gerou uma nova cis\u00e3o: entre feministas aut\u00f4nomas e aquelas vinculadas \u00e0s agendas de desenvolvimento. As primeiras criticam as segundas por buscarem a inclus\u00e3o das mulheres sem questionar as estruturas sociais e estatais, mantendo-as em pap\u00e9is subordinados, inibindo seu crescimento pessoal e perpetuando formas de viol\u00eancia sist\u00eamica.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Para observar empiricamente essa fragmenta\u00e7\u00e3o entre organiza\u00e7\u00f5es de mulheres, podemos analisar os protestos dos \u00faltimos dez anos com base nos dados da Fundaci\u00f3n UNIR Bolivia, referentes ao per\u00edodo de 2010 a 2020. Selecionando todas as organiza\u00e7\u00f5es relacionadas \u00e0s pautas de \u201cmulheres\u201d, constatamos que elas representam apenas 1,2% do total. Esse conjunto inclui grupos formais e informais dedicados a campanhas contra a viol\u00eancia de g\u00eanero, organiza\u00e7\u00f5es de base comunit\u00e1ria, profissionais do sexo, mulheres em situa\u00e7\u00e3o de vulnerabilidade e baixa representa\u00e7\u00e3o, al\u00e9m de integrantes da comunidade LGBTI.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Essas organiza\u00e7\u00f5es compartilham o fato de dirigirem suas demandas, prioritariamente, ao Poder Executivo e ao Minist\u00e9rio P\u00fablico, respons\u00e1veis pela implementa\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas p\u00fablicas e pela garantia do cumprimento da lei e da justi\u00e7a. De forma geral, realizam a\u00e7\u00f5es predominantemente pac\u00edficas, caracterizadas por baixo grau de confronto, conforme definido pela Fundaci\u00f3n UNIR. As estrat\u00e9gias variam entre declara\u00e7\u00f5es de estado de emerg\u00eancia, mobiliza\u00e7\u00f5es permanentes, amea\u00e7as de medidas de press\u00e3o e atos p\u00fablicos como vig\u00edlias, concentra\u00e7\u00f5es e manifesta\u00e7\u00f5es. As a\u00e7\u00f5es mais recorrentes s\u00e3o as marchas, com alguns casos de bloqueio de ruas e avenidas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Apenas a anarcoativista Mar\u00eda Galindo e o coletivo Mujeres Creando enfrentaram repress\u00e3o estatal direta por realizarem performances em espa\u00e7os p\u00fablicos. No entanto, a radicalidade das a\u00e7\u00f5es est\u00e1 geralmente relacionada ao contexto espec\u00edfico de cada grupo e suas demandas. Por exemplo, mulheres privadas de liberdade chegaram a empregar formas de resist\u00eancia mais extremas, como greves de fome, costura dos l\u00e1bios, reten\u00e7\u00e3o de ref\u00e9ns, motins e ocupa\u00e7\u00f5es de pres\u00eddios. Outros grupos, como sindicatos de mulheres camponesas ou organiza\u00e7\u00f5es com atua\u00e7\u00e3o mais politizada, tamb\u00e9m apresentam maior propens\u00e3o \u00e0 radicaliza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Se analisarmos a frequ\u00eancia de alian\u00e7as entre esses grupos ao longo da d\u00e9cada, vemos que a articula\u00e7\u00e3o entre organiza\u00e7\u00f5es feministas na Bol\u00edvia \u00e9 fr\u00e1gil e praticamente inexistente. A maioria atua isoladamente, mesmo quando suas demandas s\u00e3o semelhantes e direcionadas \u00e0s mesmas autoridades. A aus\u00eancia de converg\u00eancia entre suas agendas e a incompatibilidade de vis\u00f5es dificultam a forma\u00e7\u00e3o de coaliz\u00f5es amplas, capazes de mobilizar press\u00e3o coletiva significativa sobre o Estado.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Para compreender a rede feminista na Bol\u00edvia, \u00e9 preciso identificar seus principais atores. Nesse cen\u00e1rio, a ONG Coordinadora de la Mujer \u00e9 a mais bem posicionada. Segundo Ayll\u00f3n, desde os anos 1980, essa entidade incorporou o enfoque de g\u00eanero ao desenho de pol\u00edticas p\u00fablicas nacionais, promovendo a inclus\u00e3o das mulheres nos \u00e2mbitos socioecon\u00f4mico e pol\u00edtico. \u00c9 tamb\u00e9m a \u00fanica organiza\u00e7\u00e3o boliviana que, no campo dos direitos das mulheres, construiu uma rede de protesto, articulando-se com outros 14 grupos desde 2010. Al\u00e9m disso, ocupa a 125\u00aa posi\u00e7\u00e3o em um universo de 2.800 organiza\u00e7\u00f5es, o que revela seu prest\u00edgio e reconhecimento como lideran\u00e7a nesse campo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A Coordinadora n\u00e3o \u00e9 uma entidade isolada \u2014 ela \u00e9 composta por cerca de 20 ONGs em diversas cidades bolivianas, o que facilita a mobiliza\u00e7\u00e3o em datas simb\u00f3licas como o 8 de mar\u00e7o (Dia Internacional da Mulher) e o 25 de novembro (Dia Internacional pela Elimina\u00e7\u00e3o da Viol\u00eancia contra as Mulheres).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Apesar de a a\u00e7\u00e3o de rua ser um dos pilares da milit\u00e2ncia feminista, ela n\u00e3o \u00e9 o \u00fanico espa\u00e7o de articula\u00e7\u00e3o dessas organiza\u00e7\u00f5es. Existem tamb\u00e9m os encontros feministas e f\u00f3runs tem\u00e1ticos, como o promovido pela pr\u00f3pria Coordinadora em 2011, que reuniu mais de 100 organiza\u00e7\u00f5es para debater a despatriarcaliza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Importante destacar que a Coordinadora mant\u00e9m rela\u00e7\u00f5es diretas com o Estado boliviano, inclusive com movimentos sociais aliados ao governo, como a Confedera\u00e7\u00e3o Nacional de Mulheres Camponesas Ind\u00edgenas Origin\u00e1rias da Bol\u00edvia Bartolina Sisa (CNMCIOB-BS). Esses v\u00ednculos fortalecem sua capacidade de influenciar a formula\u00e7\u00e3o de leis e pol\u00edticas p\u00fablicas com enfoque de g\u00eanero, al\u00e9m de promover transforma\u00e7\u00f5es internas em sindicatos, institui\u00e7\u00f5es p\u00fablicas e privadas, meios de comunica\u00e7\u00e3o e outras entidades da sociedade civil.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No entanto, a centraliza\u00e7\u00e3o dessa influ\u00eancia tamb\u00e9m implica riscos, como o monop\u00f3lio da agenda, do discurso e da legitima\u00e7\u00e3o das demandas, o que pode excluir posi\u00e7\u00f5es divergentes e limitar o pluralismo dentro do movimento.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mas por que a articula\u00e7\u00e3o \u00e9 t\u00e3o importante? O soci\u00f3logo Mario Diani define um movimento social como uma rede de organiza\u00e7\u00f5es interligadas por colabora\u00e7\u00f5es cont\u00ednuas em torno de um objetivo comum. Trata-se de uma estrutura que permite troca de recursos, fortalecimento da identidade coletiva e respeito \u00e0 autonomia de cada grupo. A for\u00e7a do movimento social est\u00e1 justamente em unir diversidade e coes\u00e3o, sem concentrar o poder em um s\u00f3 n\u00facleo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Movimentos sociais interpelam o Estado e a sociedade, buscando transforma\u00e7\u00f5es graduais. No entanto, como mostram os dados, esse ideal ainda est\u00e1 distante na Bol\u00edvia. A consolida\u00e7\u00e3o de um movimento feminista s\u00f3 ser\u00e1 poss\u00edvel por meio de alian\u00e7as estrat\u00e9gicas e de uma abordagem compat\u00edvel com a realidade institucional, que permitam ao Estado reconhecer e garantir o pleno exerc\u00edcio da autonomia das mulheres. Enquanto cada grupo seguir lutando isoladamente, a unifica\u00e7\u00e3o do movimento se torna dif\u00edcil \u2014 e isso impacta diretamente a vida das mulheres bolivianas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Foto de refer\u00eancia: Marcha de 25 de novembro de 2016 em La Paz (Bol\u00edvia). Autora: Wara Vargas<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong><em>Maria Zeballos<\/em><\/strong><strong><br><\/strong>Antrop\u00f3loga boliviana. Pesquisa alian\u00e7as de protesto entre organiza\u00e7\u00f5es sociais na Bol\u00edvia em sua disserta\u00e7\u00e3o de mestrado em Teoria Cr\u00edtica no Programa de P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o em Ci\u00eancias do Desenvolvimento da Universidad Mayor de San Andr\u00e9s.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong><em>Wara Vargas Lara<\/em><\/strong><strong><br><\/strong>Fot\u00f3grafa e fotojornalista boliviana. Exp\u00f4s seu trabalho em diversos pa\u00edses da Am\u00e9rica Latina e Europa. Atualmente documenta o trabalho de parteiras tradicionais na Bol\u00edvia com apoio da National Geographic.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Publicado em 12 de abril de 2023<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Traduzido por: Rafael Moreira<\/strong><\/p>\n\t\t\t\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t<\/div>\n\t\t","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Um movimento feminista na Bol\u00edvia? Maria Zeballos e Wara Vargas Lara A poeta boliviana Virginia Ayll\u00f3n aponta alguns fatores que, ao longo da hist\u00f3ria, dificultaram a unifica\u00e7\u00e3o de ideias e cren\u00e7as sobre o feminismo \u2014 ou, ao menos, o estabelecimento de uma agenda comum pelos direitos das mulheres na Bol\u00edvia. 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